quinta-feira, 10 de abril de 2008

Fingindo que está tudo bem...



"Fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido


com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro


do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir


que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde


os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas


não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão


desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós


olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver


sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de


medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto


dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes:


ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:


amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um


oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.


E o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,


como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,


mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.


Eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,


que eu amava quando imaginava que amava.


Era a tua voz que dizia as palavras da vida.


Era o teu rosto.


Era a tua pele.


Antes de te conhecer, existias nas árvores


e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.


muito longe de mim, dentro de mim..."








José Luis Peixoto











Loira

2 comentários:

Anónimo disse...

...fingindo que está tudo bem...

Anónimo disse...

eu provoco esse impacto nas mulheres (h)