As crianças amuam. Por boas, más e sofríveis razões, muitas crianças amuam frequentemente, e fazem-no, sobretudo, quando não lhes fazem as vontades, quando as contrariam, quando lhes ralham ou quando não lhes dão a atenção que elas desejariam.
Também podem amuar por razões menos evidentes, mas, em qualquer caso, o amuar traduz e mostra o seu profundo desagrado com o mundo circundante.
Espantosamente, os adultos também.
Das crianças que amuam, que fazem beicinho, viram a cara, não respondem quando lhes falamos, olham de lado ou recusam o olhar, baixam a cabeça e apresentam uma atitude zangada ou distante, dizemos que são mal-educadas ou mimadas.
Dos adultos que fazem o mesmo, também.
A grande, enorme, diferença é que as crianças são, por definição e constituição desenvolvimental, autocentradas.
Quer isto dizer que não conseguem, não são capazes de se colocar no lugar do outro e, nessa medida, não têm forma de compreender que as desatenções de que se sentem vítimas e as contrariedades e frustrações que experimentam não são provas de um terrível desamor.
Para elas, tudo o que escapa ao seu controlo e foge ao seu desejo constitui-se, literalmente, como uma imensa desconsideração.
Os adultos, entretanto, são, ou deveriam ser, capazes de entender a alteridade.
Por isso mesmo, espera-se que possam conviver com alguma tranquilidade com o facto de os outros todos, mesmo que seus atentos familiares, amigos e até amantes, tenham as suas próprias agendas, quer dizer, apresentem necessidades, interesses e limites diferentes e, por vezes, conflituantes.
Espera-se que entendam o que é diferente, que gostar não significa concordar, e que, em vez de amuar, é suposto e desejável discutir, argumentar e negociar.
Espera-se e, às vezes, desespera-se.
Às crianças que amuam tolera-se o comportamento e, algumas vezes, até se agradece, já que, pelo menos, não houve lugar a uma birra barulhenta e desesperante.
Dos adultos que amuam acha-se que fizeram uma birra e, mesmo que no maior silêncio, o que fica é um lastro de infantilidade sempre desesperante.
Autor: Isabel Leal
2 de Jun de 2011
M.
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